"O Cinema Clássico na ótica de Alfred Hitchcock" - Aula 1
A construção da linguagem no cinema clássico
Introdução ao curso
- O curso não se concentra exclusivamente em Alfred Hitchcock, mas sim na relação entre a tradição do cinema industrial e sua evolução, especialmente em Hollywood.
A trajetória do cinema
- A análise abrange o desenvolvimento do cinema desde seu início até o apogeu nos anos 50, destacando a importância de Hitchcock na caracterização da linguagem cinematográfica.
Influência de David Wark Griffith
- O professor menciona que o percurso inclui uma análise das contribuições de Griffith, um cineasta fundamental entre 1908 e 1920, cujas técnicas influenciaram diretamente Hitchcock.
Evolução da narrativa cinematográfica
- Desde o surgimento do cinema narrativo em 1894/95, houve uma multiplicidade de direções e usos que culminaram na necessidade de desenvolver recursos para encadear histórias visualmente coerentes.
Captação do drama no cinema
- A capacidade do espectador de se identificar com as personagens é crucial; isso envolve tanto a disposição das cenas quanto a interioridade dos personagens, permitindo uma experiência dramática compartilhada.
Elementos fundamentais da linguagem cinematográfica
Enquadramento e expressividade
- O uso detalhado de close-ups intensifica o drama das personagens, permitindo que emoções sejam captadas através da expressão facial e gestos isolados.
Distância entre câmera e atores
- A escolha da distância ao filmar interações entre várias personagens é essencial para transmitir experiências subjetivas sem perder a clareza narrativa.
Importância da montagem
- A montagem é um elemento crítico que pode intensificar ou suavizar o aspecto dramático das situações apresentadas no filme, orientando sempre a experiência do espectador em direção à personagem central.
Coerência narrativa no cinema clássico
- O cinema clássico busca não apenas uma lógica narrativa acessível, mas também enfatiza a experiência humana como núcleo central das narrativas ficcionais. Isso distingue filmes poéticos ou experimentais que podem não focar em figuras humanas centrais.
A Construção do Cinema Clássico
Relação com Personagens e Motivações
- O cinema clássico intensifica a relação do espectador com personagens fictícios, onde cada procedimento do cineasta deve ser motivado.
- O espectador questiona a relação entre novas imagens e as anteriores, buscando conexões com os personagens apresentados.
- Em um filme clássico, a cena pode começar com um plano geral que estabelece o ambiente e os personagens envolvidos na narrativa.
Importância da Motivação no Cinema
- A introdução de uma nova imagem deve ter relevância para o protagonista, conectando-se à sua experiência e atenção.
- Essa conexão entre a imagem aparentemente sem sentido e o protagonista cria uma sensação de conforto para o espectador.
- Os procedimentos cinematográficos (câmera, montagem, som) devem sempre referir-se ao universo ficcional das personagens.
Suspense no Cinema Clássico
- O suspense é um elemento fundamental desde o início do cinema, explorado amplamente por Griffith entre 1908 e 1932.
- A primeira forma de suspense era baseada em situações mecânicas onde os personagens enfrentavam desafios físicos para alcançar seus objetivos.
Montagem Paralela como Técnica de Suspense
- A montagem paralela alterna entre imagens de ameaça e ações dos que tentam salvar alguém, criando tensão até que as narrativas convergem.
- Com o tempo, o suspense evoluiu para incluir aspectos psicológicos além dos desafios físicos.
Exemplo Prático: "Lonely Villa"
- O filme "Lonely Villa" exemplifica bem a técnica de montagem paralela utilizada por Griffith em 1909.
- A narrativa envolve ladrões tentando roubar uma casa enquanto o médico sai para atender um chamado falso, deixando sua família vulnerável.
Análise do Cinema Clássico e Melodrama
Estruturas Narrativas e Dispositivos Cinemáticos
- O uso de espaços repetidos no cinema clássico permite que o espectador reconheça rapidamente a cena, facilitando a imersão na narrativa.
- A importância da posição fixa da câmera é ressaltada para manter a continuidade visual e emocional, especialmente em momentos de tensão.
- A introdução de sons fora de campo serve como um recurso narrativo crucial, informando o espectador sobre eventos que ocorrem fora da tela.
- Griffith utiliza dispositivos mecânicos para prolongar a resolução dos conflitos, criando uma expectativa dramática ao adiar ações importantes.
- A montagem paralela é destacada como uma técnica eficaz para manter o interesse do espectador, conectando simultaneamente diferentes ações.
Elementos Dramáticos e Técnicas de Montagem
- O corpo dos personagens em posições semelhantes na tela ajuda a criar uma conexão visual entre eles durante as cenas críticas.
- O telefone é identificado como um dispositivo essencial no desenvolvimento das tramas dramáticas, simbolizando comunicação e distância emocional entre os personagens.
- Hitchcock é mencionado por seu uso inovador do telefone para intensificar o suspense nas interações entre os personagens.
- A figura do "observador interno" se torna um elemento identificável para o público, representando sua curiosidade e empatia com os personagens em situações tensas.
- Momentos de montagem mais sofisticados são utilizados para transitar entre diferentes espaços narrativos, aumentando a complexidade da história.
Conclusões sobre Melodrama e Suspense
- A questão do tempo se torna central na narrativa; a expectativa sobre se os heróis chegarão a tempo cria tensão contínua ao longo da trama.
- O final típico do melodrama apresenta uma reunião familiar que restabelece a ordem social e emocional após crises dramáticas.
- Griffith é destacado como um mestre formador do cinema clássico, influenciando profundamente as estruturas narrativas subsequentes no cinema.
- A diferença entre Hitchcock e Griffith reside na transição do suspense físico para psicológico, explorando dramas internos das personagens além das ameaças externas.
- O próximo segmento promete explorar sequências cinematográficas que exemplificam essas técnicas discutidas.
Análise do Filme "The Avenging Conscience" de Griffit
Contexto e Adaptação
- O filme "The Avenging Conscience", realizado por Griffit em 1914, é uma adaptação de um conto de Edgar Allan Poe, que explora a moralidade e a culpa.
- A história gira em torno de um jovem criado por seu tio, que acaba arquitetando o plano de matar o benfeitor. O corpo do tio é escondido na lareira da casa.
Temas Centrais
- A pulsação do coração do tio enterrado simboliza a culpa e o tormento psicológico que aflige o protagonista, refletindo uma forte ideia melodramática.
- A consciência moral do jovem se torna central à narrativa, levando-o a alucinações e comportamentos estranhos conforme sua culpa aumenta.
Desenvolvimento da Narrativa
- Em uma cena crucial, a namorada do protagonista começa a desconfiar dele, sinalizando a evolução da sua consciência moral ao longo da trama.
- O título "The Avengers" sugere um remorso amargo ligado à consciência cristã, com elementos dramáticos que se entrelaçam na narrativa.
Interações e Conflitos
- A montagem das interações entre o detetive e o protagonista revela como as conversas mudam rapidamente de amistosas para confrontativas.
- Um dispositivo narrativo importante é a pulsação que desencadeia a desmontagem emocional do herói culpado.
Linguagem Cinemática
- O cinema clássico utiliza o olhar como uma forma poderosa de comunicação emocional; neste filme, isso se manifesta nas interações entre os personagens.
- A força moral dos personagens influencia suas dinâmicas; quem possui mais poder moral consegue impor sua vontade sobre os outros.
Transição para Fritz Lang e "M"
Evolução no Cinema Sonoro
- Após discutir Griffit, há uma transição para Fritz Lang e seu filme "M", realizado em 1931 na Alemanha, marcando um avanço significativo no cinema sonoro.
Temáticas Mais Complexas
- Ao contrário da abordagem mais ingênua de Griffit, Lang aborda questões profundas relacionadas à culpa através da figura do serial killer.
A Atmosfera de Terror no Filme
Introdução ao Clima de Tensão
- O filme inicia com uma sequência que estabelece um clima de terror, apresentando uma situação fora da rotina e do cotidiano normal.
- A cena inicial mostra um círculo infantil, simbolizando a inocência, enquanto a câmera se afasta para revelar um ambiente mais amplo e potencialmente ameaçador.
Uso do Som e Expectativa
- O som é utilizado para criar uma sensação de distância e reverberação, intensificando a atmosfera tensa à medida que a câmera se afasta das crianças.
- A mãe de uma das crianças demonstra mau humor em relação à situação, introduzindo uma figura feminina carregada de resignação e premonição.
Montagem Paralela e Criação de Expectativa
- O filme utiliza montagem paralela para contrastar o espaço seguro da casa com o perigo iminente na rua, criando expectativa sobre o destino da criança.
- Um cartaz oferece recompensa por informações sobre um assassino em série, aumentando a tensão ao antecipar a presença da ameaça.
Elementos Visuais e Narrativos
- O uso da sombra como representação da ameaça é um clichê cinematográfico que intensifica o efeito dramático sem mostrar diretamente o criminoso.
- As crianças questionam sobre uma colega ausente, utilizando o ponto de vista para construir suspense através do olhar dos personagens.
Repetição e Intensificação Dramática
- A repetição é utilizada como ferramenta dramática; o vazio visual sugere algo ominoso que está prestes a acontecer.
- Uma imagem conhecida do filme apresenta reflexões visuais que criam molduras narrativas complexas enquanto os personagens observam eventos cruciais.
Conclusão Visual e Sonora
- A construção narrativa joga com as expectativas do público ao manipular pontos de vista visuais antes de revelar ações importantes.
- A trilha sonora desempenha um papel crucial na criação da tensão; ela se torna mais intensa durante momentos críticos, ligando-se aos eventos finais do filme.
A Questão da Culpa e do Desejo no Cinema
O Tribunal dos Marginais
- O protagonista se encontra em um tribunal irônico, que é uma paródia de um tribunal tradicional, onde reivindica sua inocência.
- Ele argumenta que não é culpado porque não age por conta própria; há uma força externa que o controla, sugerindo a ideia de possessão.
Complexidade da Culpa
- A questão da culpa é apresentada como complexa e multifacetada, desafiando a simplicidade das definições tradicionais.
- O filme sugere um processo compulsivo, onde o desejo do personagem está ligado a uma pulsão incontrolável.
Análise Psicanalítica
- A análise psicanalítica é proposta como chave para entender as situações apresentadas no cinema de Hitchcock, que frequentemente explora o desejo humano.
- Hitchcock cria narrativas onde os dilemas morais são mais complicados do que simplesmente distinguir entre bem e mal.
Mecanismos Obsessivos
- A discussão sobre obsessões revela que os mecanismos psicológicos não podem ser reduzidos a decisões simples; o psiquismo humano é complexo e multifacetado.